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Milhões de pessoas vivem um padrão repetitivo: fazem dieta, emagrecem, abandonam a dieta e voltam a ganhar peso. O grande problema é que a obesidade é uma condição crônica — ou seja, não tem solução definitiva, mas pode ser controlada. Para isso, é essencial adotar háticos sustentáveis ao longo da vida.
Segundo Marcio Mancini, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional São Paulo (SBEM-SP) e chefe do Grupo de Obesidade do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), o chamado “efeito sanfona” frequente pode alterar a composição do corpo. A cada ciclo de perda e recuperação de peso, o paciente tende a perder massa muscular e recuperar o peso principalmente na forma de gordura, o que pode levar à sarcopenia com o passar do tempo.
Perder peso traz benefícios, mas o ideal é evitar oscilações constantes. “Mesmo perdas temporárias podem gerar melhoras parciais no perfil lipídico e no controle da glicose, mas é importante evitar grandes variações de peso, buscando um emagrecimento mais lento e sustentável”, explica o médico.
Estratégias para evitar a recuperação do peso
“Há múltiplas abordagens com eficácia comprovada, e a combinação de estratégias costuma ser mais efetiva do que ações isoladas”, afirma Barreto, especialista da área. Confira as principais recomendações:
Acompanhamento profissional contínuo Uma das medidas mais importantes é o suporte médico regular e estruturado ao longo do tempo.
Atividade física Praticar exercícios com frequência é fundamental, especialmente o treino de força, que ajuda a preservar a massa magra durante a perda de peso e reduz o impacto negativo na taxa metabólica de repouso. “Embora não impeça totalmente a adaptação metabólica, o exercício minimiza a perda muscular. Já o aeróbico contribui para o balanço energético negativo e benefícios cardiovasculares, mas sozinho tem efeito mais modesto para evitar o reganho”, explica o médico. A combinação de exercícios aeróbicos e de resistência é a mais indicada para manter uma composição corporal favorável.
Além do exercício planejado, Mancini destaca a importância de manter um estilo de vida ativo — como caminhar mais e usar escadas.
Consumo adequado de proteínas Uma ingestão proteica adequada ajuda na saciedade, na manutenção da massa magra e pode aumentar a termogênese provocada pela alimentação.
Monitoramento regular do peso Pesar-se com frequência (diariamente ou semanalmente) ajuda a perceber pequenas oscilações antes que elas se tornem um ganho consolidado. Registros alimentares e de atividades físicas, inclusive por aplicativos ou smartwatches, também são úteis.
Apoio psicológico Muitas pessoas se beneficiam de suporte emocional. Abordagens como terapia cognitivo-comportamental, entrevista motivacional e estratégias de resolução de problemas melhoram a adesão e a manutenção de hábitos saudáveis.
Sono de qualidade e controle do estresse O descanso adequado e o manejo do estresse são ferramentas essenciais, mas muitas vezes negligenciadas. A privação de sono e o estresse constante estão ligados a mudanças hormonais que favorecem o ganho de peso — aumento do cortisol e da grelina (hormônio da fome) e redução da leptina (hormônio da saciedade). Isso pode levar a um maior consumo de alimentos, especialmente os mais calóricos, e à diminuição da atividade física. Estudos mostram que o estresse e a alimentação emocional são vistos como grandes vilões para o reganho de peso, mesmo sem fome fisiológica.
Uso contínuo de medicamentos (quando indicado) Muitos enxergam os remédios apenas como um recurso temporário para emagrecer, mas eles também podem atuar na prevenção do reganho. Segundo especialistas, esse tipo de estratégia pode — e muitas vezes deve — ser mantido de forma contínua, sempre com orientação profissional e de maneira individualizada.
Barreto alerta que não existe um tratamento único para todos. “Alguns pacientes conseguem manter bons resultados com redução gradual da dose ao longo do tempo. Outros podem precisar de manutenção prolongada com doses plenas. A decisão depende da gravidade da condição, das doenças associadas, da resposta clínica e da tolerabilidade.”
Ele também defende a redução do estigma em torno dessas medicações, já que ainda existe a ideia equivocada de que usá-las seria um “atalho”.
Estudo aponta novos rumos A pesquisa ATTAIN-MAINTAIN, publicada recentemente na revista científica Nature Medicine, avaliou a troca de medicamentos injetáveis para o orforglipron, uma versão oral já disponível no exterior (sob o nome Foundayo), mas ainda não liberada no Brasil, como estratégia para manter o peso perdido.
No estudo, pacientes que haviam atingido um platô de emagrecimento após uso de tirzepatida ou semaglutida foram divididos para receber orforglipron oral diário ou placebo na fase de manutenção. Os resultados foram positivos, mostrando eficácia significativa do orforglipron na preservação da perda de peso e em outros desfechos avaliados. “O trabalho reforça que a obesidade deve ser encarada não apenas como uma condição que exige perda de peso, mas também como algo que demanda uma estratégia estruturada e contínua de manutenção metabólica”, explica Barreto.
A pesquisa também aponta o potencial da chamada terapia intermodal — uso de diferentes medicamentos em etapas distintas do cuidado. “Essa abordagem pode ampliar a adesão, especialmente pela praticidade de uma opção oral, além de potencialmente reduzir custos no acompanhamento crônico da obesidade. Embora sejam necessários mais estudos, os dados indicam um modelo de cuidado cada vez mais personalizado, racional e sustentável no longo prazo”, conclui Barreto.
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